25 de jun de 2011

Fonte: http://www.urbanistas.com.br/
Sobre a profissão de jornalista


Graduei-me em jornalismo na década de 90, pela Universidade Estadual de Londrina. Entre as coisas que aprendi e que parecem não ter envelhecido, estão o cuidado com a apuração dos fatos, ouvir os diferentes lados de uma questão, redigir com objetividade (embora isso seja diferente de neutralidade) e, principalmente, a usar de maneira adequada a língua portuguesa.
O Jornalismo mudou muito. No entanto, algumas estruturas permanecem as mesmas, entre elas o "lead", termo em inglês que indica as informações principais que devem ser esclarecidas na abertura de um texto qualquer. Se bem me lembro das aulas da faculdade, o lead foi criado em um contexto em que os jornais precisaram enxugar o número de páginas, devido aos altos custos do papel. Foi uma alternativa aos textos longos, cheios de detalhes e opiniões, onde muitas vezes a informação principal vinha escondida no rodapé, depois de um longo "nariz de cera". Penso que essa terminologia nem exista mais.
A pirâmide invertida, termo clássico no jornalismo há nem sei quantos anos, parte do princípio de que o texto jornalístico começa com o mais importante. O Lead responde às perguntas "O que, quem, como, quando, onde e porque". Para dar maior riqueza aos textos, eles passaram a desdobrar-se em retrancas, ou boxes, muitas vezes ocupados por personagens ou histórias paralelas que servem para reforçar o texto principal.
Trabalhei alguns anos como repórter e era comum a gente sair da redação com a matéria pronta na cabeça. A estrutura do texto se formava, o personagem se delineava, as perguntas buscavam as respostas que queríamos ouvir. Algumas vezes isso acontecia, outras não. Muitas vezes voltei para a redação e derrubei a matéria, porque não tinha um bom conteúdo, o personagem era fraco ou não condizia com o que havia sido pensado pela pauta.
Anos depois, como assessora de imprensa, do outro lado do balcão, passei a sugerir pautas e auxiliar jornalistas na produção de suas matérias. Muitas vezes as empresas onde trabalhei foram alvo de críticas e crises, mas sempre acreditei que relacionamento com a imprensa se constrói com base em conteúdo de qualidade.
Dia desses, um amigo, ciclista de fim de semana, foi entrevistado por uma emissora de TV local que o classificou como profissional, participante de competições nacionais. Justo ele, que começou a pedalar há pouco tempo e no máximo faz trilhas nos arredores da cidade. Contou-me que a repórter começou perguntando sobre o tempo que ele pedalava, mas não foi mencionado nada sobre competições ou atuação profissional. A jornalista provavelmente criou essa classificação para fazer com que seu personagem coubesse na pauta. Ela pode ter se confundido, claro, mas o erro foi feio e contribuiu para que esse meu amigo questionasse a credibilidade do veículo.
Hoje, no jornal local, foi publicada uma decisão judicial a respeito do uso da foto de um adolescente trabalhador em uma matéria sobre jovens infratores. Pelo que pude entender, o menino foi fotografado para uma matéria que falaria sobre adolescentes trabalhadores, mas houve uma inversão e a matéria falava de jovens infratores e usava sua imagem para ilustrar. Ofendido, ele processou o jornal e teve ganho de causa, anos depois do ocorrido. Provavelmente, algum jornalista achou que o impacto seria maior se o menino trabalhador fosse transformado, pelo poder de uma legenda, em infrator.
Muitas vezes vemos no jornalismo local matérias mal redigidas ou ainda com a apuração de apenas um dos lados. Li há algum tempo matéria que falava sobre as mesas de bares nas ruas. Ouviram donos e frequentadores de bar. Ouviram os legisladores. Não ouviram os pedestres, que são os maiores afetados pelas calçadas ocupadas com mesas e cadeiras. Muitas vezes, precisam andar nas ruas.
Vejo descaso com as normas do jornalismo na TV, no impresso, no rádio, no on line. Temos três faculdades de jornalismo na cidade, uma pública e duas particulares. Temos excelentes profissionais. Para complicar um pouco, decide-se pelo fim da necessidade do diploma para o exercício da profissão. Isso faz refletir.
Uma vez, tive a chance de atender ao jornalista Fábio Pannunzio, da Band, em Minaçu (GO), quando trabalhava em uma mineradora. A matéria dele era sobre os malefícios que a mina poderia causar à saúde das pessoas. Quando ele chegou lá, teve a chance de visitar a mina, falar com executivos e com trabalhadores. Conversou com gente da cidade, andou e por fim, derrubou a matéria. Na época, ele me disse que sua pauta eram os problemas de saúde gerados pela mina. Como a realidade que ele encontrou foi diferente, preferiu derrubar a matéria e pronto. Para que inventar?
Atendi também um jornalista do jornal O Globo, de Brasília. Este, mesmo sem encontrar fatos concretos, estruturou sua matéria em frases como "todo mundo diz", "parece que", "tudo indica", "mais da metade da população" e outras do gênero, sem ter conseguido uma fonte que confirmasse suas afirmações. O jornal resolveu publicar e acabou processado e tendo que se retratar pelos fatos que o menino inventou.
Sou jornalista por escolha e, mesmo trabalhando em organizações, procuro me ater aos fatos, identificar o que realmente é notícia e preparar porta vozes que possam transmitir credibilidade e contar boas histórias. Alguns princípios não morrem nunca e o bom jornalismo existe, mas temos que nos manter vigilantes. Sempre.

Vestido púrpura

Fonte: http://lkthayer.wordpress.com/
Há muitos anos, li pela primeira vez um poema, que começava assim: "quando envelhecer, vou vestir púrpura", de Jenny Joseph. Era sobre uma mulher que narrava todas as coisas que gostaria de fazer quando ficasse velha, longe da necessidade de obedecer às convenções sociais. No final, ela cai na real: para que esperar envelhecer? Ela iria começar a vestir púrpura a partir daquele momento, para praticar e evitar que as pessoas se chocassem com uma mudança súbita demais.
Por que lembrei deste texto agora? Porque cada vez mais quero viver a vida de acordo com minhas crenças, meus gostos e minhas escolhas.
Quero usar minhas meias coloridas, pintar minhas unhas em tons vivos, cantar alto enquanto caminho, conversar com meus cachorros enquanto passeamos pelo bairro. Quero acreditar que as pessoas, a princípio, têm alma boa e não vieram ao mundo para nos sacanear. Quero ser gentil com meus vizinhos, com meus alunos, com amigos e colegas. Quero curtir minha solidão, embora não goste de ser sozinha. Quero viver meus 40 e poucos anos sem temer rótulos, sem temer mudar de idéia, sem seguir o script que traçaram para a mulher dos tempos modernos. Não quero fingir que certas coisas estão nos seus perfeitos lugares, quando na verdade sei que não estão.
Quando eu era mais nova, lembro-me de usar um sapato amarelo com um laço em cima. Minha mãe odiava, mas eu não tirava do pé. Tinha um macacão púrpura que não tirava nunca, até que ele ficou tão desbotado que nem chegava a ser lilás. Meus cabelos, algumas vezes coloridos, outras vezes irregulares, curtos, longos, anelados, lisos, enfeitados com flores, tiaras e chapéus. Amigos esquisitos. Mania de estudar até de madrugada. Eu era uma adolescente esquisita, virei uma mulher esquisita e acho que serei uma velha esquisita. Mas afinal, esquisita por que, cara pálida? Esquisita porque comecei a vestir púrpura desde muito cedo.
Tenho um tênis all star púrpura. Que combina com um vestido do mesmo tom. Adoro cantar enquanto caminho no Parque do Sabiá. Algumas vezes danço. Detesto sair em companhia de pessoas cujo único objetivo na vida é encontrar um par (embora eu queira muito isso!). Perco a paciência com quem julga pelas aparências, embora algumas aparências tenham fortes indícios de serem verdade. Tenho um milhão de defeitos. Alguns bons amigos. Adoro tomar cerveja. Sou muito boa de garfo. Adoro conversar com estranhos na rua e cumprimento sorrindo todos os que cruzam comigo em minhas caminhadas.
A cada dia aprendo que quero viver de acordo com o que acredito. Quero ter a liberdade de ficar sozinha e de escolher com quem ficar. Quero ser inteligente e não ter vergonha disso. Uma nerd assumida e feliz. Quero que meu caminho se cruze com gente que tem conteúdo. Quero ter estabilidade financeira para ser cada vez mais dona do meu nariz.
Quando envelhecer, não vou vestir púrpura. Vou vestir as cores do arco íris na alma. Vou ser feliz. E vou começar hoje. Agora. Já.

Para quem ficou curioso, segue o poema de Jenny Joseph, chamado "Aviso".

"Quando ficar velha, quero usar púrpura .Com chapéu vermelho, que não combina e fica ridículo em mim.Vou gastar o dinheiro que tenho em uísque, usarei luvas no verão, e me queixarei que falta manteiga em casa.Vou sentar-me no meio- fio quando estiver cansada, comerei todas as ofertas do supermercado, tocarei as campainhas dos vizinhos, arrastarei meu guarda-chuva nas grades da praça, e só assim me sentirei vingada por ter sido tão séria durante a juventude.Vou andar de chinelos, arrancar flores do jardim dos outros, e cuspir no chão.Vou usar roupas horríveis, engordar sem culpa, comer um quilo de salsichas no almoço, ou passar uma semana só na base do pão e picles.Vou juntar caixinhas, lápis, e rótulos de cerveja.Mas, enquanto ainda sou jovem, preciso de um tipo de roupa que me deixe seca em caso de chuva, tenho que pagar o aluguel, não posso dizer palavrão na rua, sirvo de exemplo para a infância, preciso ler jornal, estar informada, convidar meus conhecidos para jantar.Por isso, quem sabe eu deveria começar a treinar desde agora? Assim ninguém vai ficar chocado quando de repente, eu ficar velha e começar a usar púrpura." (Jenny Joseph)

Qualidades do programa do Mestrado em Administração na UFU

Fonte: www.ufu.br
Há um mês, concluí o curso de Mestrado em Administração na Universidade Federal de Uberlândia, onde ingressei em março de 2009. Com três meses de atraso, defendi minha dissertação em uma tarde de sábado, após um processo que envolveu uma dedicação muito grande de minha parte e uma postura extremamente profissional de meu orientador, o professor Valdir Machado Valadão Júnior.
Sempre ouvimos críticas à universidade pública. Críticas ao sistema de ingresso, ao que mede a produtividade dos professores, à qualidade de ensino e métodos avaliativos. Críticas a professores que trabalham como consultores mesmo tendo contratos de dedicação exclusiva, que se envolvem em projetos acadêmicos onde não se vislumbra, no curto prazo, retorno para os investimentos públicos ali depositados. Poucas vezes ouvimos elogios e é isso que quero fazer aqui.
Ao longo dos 27 meses que passei estudando na UFU, gratuitamente, percebi que algumas dessas críticas são verdadeiras sim, mas existem muito mais coisas positivas que negativas em um programa de Mestrado. Por mais que os projetos de pesquisa possam restringir-se aos muros da academia - gerando um conhecimento que poderá ou não tornar-se útil - ali dentro se formam cidadãos mais críticos, reflexivos, questionadores. Se formam futuros professores e pesquisadores que enxergam na atividade acadêmica muito mais que um emprego burocrático. Enxergam a contribuição que poderão dar para a formação de muitos jovens.
Vemos um ambiente acadêmico, quer na faculdade pública, quer na privada, marcado por jovens que chegam cada vez mais despreparados. Algumas vezes, o caminho deles se cruza com o de professores também despreparados. Outras, com professores que estimulam a leitura, a discussão, o exercício da construção de sentidos que vai além da superfície e leva ao pensamento autônomo. Em um programa de Mestrado, não estudamos para formar trabalhadores. Estudamos para formar cidadãos.
Quando iniciei o Mestrado, em 2009, eu era fruto de uma vida corporativa marcada pela visão instrumental da profissão de Comunicação. Poucas vezes parei e refleti sobre os processos organizacionais e seu impacto sobre a vida das pessoas. Ao longo das aulas, comecei a perceber a mim mesma de uma forma diferente, mais crítica. No processo da dissertação, muito solitário, comecei a tecer minha própria colcha de sentidos em torno de um tema. Aprendi a relacionar conteúdos, a analisar dados, a considerar diferentes perspectivas, a escrever de uma maneira diferente.
Em meu caminho de aprendizado, a figura do meu orientador foi fundamental. Funcionário público, professor de uma universidade federal, quantas vezes me atendeu em finais de semana, além do horário, lendo trabalhos, direcionando caminhos, aplacando minhas angústicas e inseguranças. Com ele entendi o que significa orientar um trabalho acadêmico. Envolve mais que dar uma lida ou algumas idéias de maneira entrecortada, em conversas de corredor. Orientar envolve dedicar-se, ser co-autor, estimular a curiosidade, desafiar, criticar, cobrar, provocar, acalmar, incentivar.
Em toda profissão e em todo ambiente acadêmico é possível encontrar bons e maus profissionais. Tive a sorte (ou seria o privilégio) de estar entre os bons, de ser orientada por um dos melhores. Com o professor Valdir Valadão aprendi muito mais que Administração. Aprendi novamente a pensar, a ler, a pesquisar, a relacionar conteúdos, a resgatar todo o potencial intelectual que sempre fez parte de minha história. Aprendi que não preciso me submeter a certas coisas e que posso tomar diferentes decisões como professora e pesquisadora, mas elas devem ser embasadas.
Espero que muitos outros alunos que participam dos programas de Mestrado da UFU saibam tirar proveito dessa oportunidade. É uma jornada muitas vezes difícil, com cobranças, sobrecarga, falta de recursos financeiros, falta de tempo. Na reta final, chega a ser uma jornada marcada pelo desespero. Mas é uma jornada que nos faz melhores, em todos os sentidos. E eu, que já adorava a nossa Universidade Federal de Uberlândia, agora sou uma de suas maiores defensoras. Um lugar onde a gente exercita a capacidade intelectual e, ao mesmo tempo, se torna uma pessoa melhor.

Pequenos delitos, ainda delitos

Fonte: http://epucm.blogspot.com
Uma frase me chocou muito na semana que passou. Ao ser detido, um dos assassinos confessos de uma jovem empresária uberlandense defendeu-se dizendo que ele apenas havia atirado na moça, mas não a tinha violentado. Em sua fala, era como se, ao matar, ele tivesse cometido um delito menor que o estupro. Muito provavelmente, o jovem temia a lei do presídio, onde estupradores não têm perdão. Não temia a lei dos homens, da qual já havia se safado inúmeras vezes antes do assassinato da empresária.
O fato chocou Uberlândia e me fez refletir muito a respeito de nossa tendência em buscar nossas próprias desculpas para pequenos delitos. Nada que se compare a tirar a vida de alguém, mas ações como ultrapassar um sinal vermelho, dirigir falando ao celular ou embriagado, aceitar o troco errado em uma conta de bar, deixar o volume de som super alto mesmo após as 22h, sonegar impostos, desrespeitar a prioridade dos idosos e pessoas com deficiência, copiar as idéias de terceiros. Pequenos delitos, ainda delitos.
Fico me perguntando onde foi que perdemos o respeito pelas leis, normas, regulamentos, hierarquias. Em que momento deixamos de respeitar os mais velhos. Talvez a culpa seja mesmo do Gérson, que celebrizou em uma campanha de cigarros a mania do brasileiro querer levar vantagem em tudo, certo?
Nos dias de hoje, vejo jovens que copiam trabalhos escolares e assumem a autoria como se fossem seus. Fazem isso sem o menor constrangimento e ainda acham ruim quando um professor mais atento toma o cuidado de jogar trechos destes trabalhos no google e identifica a fraude, cuja nomenclatura técnica é plágio. Perdem datas de provas, desrespeitam prazos e insistem para que o professor dê um jeitinho em suas notas.
Vejo diariamente motoristas que dirigem e falam ao celular, sem preocupar-se com o fluxo dos pedestres. Motoristas que ultrapassam o limite de velocidade e invadem corredores de ônibus, matando jovens a caminho da universidade. Que furam semáforos para ganhar alguns segundos e tiram vida de crianças que brincam nas ruas. Que dirigem embriagados e matam em série.
Muitas noites não consigo dormir porque uma escola infantil vizinha de minha casa deixa o alarme disparar e tocar a noite toda, incomodando um quarteirão inteiro. Segundo a empresa de segurança que faz o monitoramento, os proprietários não atendem aos chamados. No centro da cidade, uma festa junina ultrapassa o horário permitido com som muito alto e ofende os moradores que brigam pelo seu direito a uma noite de sono.
Vejo também empresas explorando seus funcionários, ao adotar um discurso onde quem é comprometido sacrifica sua vida pessoal, relações familiares e saúde para apresentar resultados "excepcionais". Horas adicionais sem remuneração, viagens que terminam tarde e jornadas que começam cedo. Por trás do discurso de "vestir a camisa", desrespeitam pessoas e as tratam como recursos administrativos que fazem a roda da fortuna rodar a favor das corporações.
Vejo ainda políticos que roubam, mentem, exploram, desviam recursos, dirigem embriagados, fraudam, chantageiam, perdoam pequenos delitos de seus pares. Políticos que fazem um juramento no dia da posse, de defender o interesse público, mas dedicam-se unicamente à defesa dos seus interesses privados.
Vejo pessoas que jogam lixo nas ruas, pelas janelas dos carros. Que furam filas, subornam, desrespeitam o direito dos mais velhos.
Há algumas semanas, o publicitário uberlandense Celso Machado escreveu no jornal Correio uma crônica a respeito de coisas que lhe dão vergonha (se quiser ler, clique aqui). Muitas delas estão escritas aqui. Gostei bastante do texto porque trata justamente destes pequenos delitos. A questão é que, como não existe fiscalização, muitos deles acontecem às vistas de todos, algumas vezes até mesmo sob o olhar da polícia.
Na celebração de Corpus Christi, a Setran foi chamada para controlar o trânsito em torno da praça onde fica nossa paróquia. Vários carros estavam estacionados sobre faixas de pedestres, em cima de calçadas, bloqueando portões, colados nas esquinas. Como eles não estavam ali para multar, e sim para coordenar a procissão, ignoraram os delitos dos motoristas, fiéis a Deus mas infiêis às leis de convivência urbana.
E assim caminhamos como sociedade, ao considerar pequenos delitos como coisas normais. Acontece que não importa o tamanho do desrespeito à lei, ele continuará sendo desrespeito e merece punição. É esperar que se cumpra a lei dos homens.

1 de jun de 2011

Tateando em busca dos sonhos

Existem pais que, por trabalharem muito, perdem a oportunidade de verem os filhos crescendo. Preocupam-se mais com sua carreira, em ganhar dinheiro para pagar as contas, em participar de reuniões que invadem a noite, do que em sentar no chão e brincar com o moleque ou com a menina.
Embora não tenha filhos, eu deixei de ver muita gente crescendo em minha família. Dia desses, isso me fez chorar. Desde que saí de casa, aos 18 anos, para fazer faculdade, de certa maneira distanciei-me da minha família. Estive presente em momentos como casamentos, formaturas, nascimentos, algumas perdas. Mas não me preocupei em estar perto naqueles momentos mágicos, em que minhas irmãs construíram algo único e especial.
O motivo do meu choro e da imensa sensação de perda, foi ter assistido, em vídeo, ao belíssimo trabalho que minha irmã Alessandra fez, durante muitos anos, junto a crianças especiais de Franca, onde vive toda a minha família. Há anos ouço-a falar com orgulho desse projeto, onde ela já apresentou peças como O Pequeno Príncepe, A menina e o pássaro encantado, Cinderela, entre vários outros.
Os atores do projeto, chamado Tateando, são crianças especiais, algumas com dificuldades motoras, outras visuais, auditivas, mentais. Mas todas dotadas da capacidade de amar e realizar sonhos. Ao assistir aos videos que ela me emprestou, vi um Pequeno Príncepe na cadeira de rodas, conversando com seres de diferentes planetas e dando valor real a uma rosa. Vi uma menina cega em busca do pássaro que se foi. Ouvi a voz de minha irmã cantando uma bela música em homenagem aos seus atores, em tablados simples, atuando como se estivessem em palco encantado, onde limites são imaginários.
Infelizmente, jamais estive presente em uma dessas apresentações. Primeiro a carreira, depois o mestrado. Várias vezes, em casa, vi minha mãe e minhas irmãs trabalhando para criar o Mundo de Oz ou então o reino da Feiolândia, tão vivos em nossas memórias de quem vivenciou intensamente o reino infantil dos contos de fadas. Nunca me ofereci para ajudar. Nunca pude participar.
Minha irmã mais nova cresceu. Aquela a quem chamávamos de Bazinho, a mais mimada de todas as irmãs. Aquela que enfrentou desafios, que rompeu barreiras, que teve a coragem de propor, em uma cidade onde as pessoas com deficiência ficavam escondidas em suas casas, um projeto onde elas passaram a ter direito às luzes da ribalta.
Ela cresceu. E eu não vi. Deixei que se passassem momentos tão belos, tão únicos.
Ao assistir aos vídeos, chorei muito pelo que perdi. Pelo tempo que não dediquei às minhas irmãs, à minha mãe, aos meus sobrinhos. Muitas vezes em minha vida coloquei a carreira em primeiro lugar. Tive muitos ganhos com isso, mas também algumas perdas. Entre elas, não vi minha irmãzinha crescer. Não vi de perto sua coragem em enfrentar preconceitos, em conseguir recursos para viabilizar seu projeto, em transformar meninos perdidos em verdadeiros Peter Pans.
A vida é feita de escolhas. Elas nos conduzem. Algumas vezes nosso rosto ficará marcado por sorrisos, outras por lágrimas. Neste momento, elas caem, quando assisto novamente o vídeo referente ao seu trabalho, tão lindo. Parece-me que agora ele será encerrado, porque houve algum tipo de mudança entre as pessoas que coordenam o projeto. Mas minha irmã plantou uma semente de amor, de respeito pelas diferenças. Ela mostrou que é possível que uma criança especial seja chamada de especial por realmente ser capaz de expressar seu talento, seja em que corpo for, seja em que alma for.
Não se pode recuperar o que se deixou para trás, mas se pode reconhecer algo que toca a alma. Parabéns Alessandra. Minhas lágrimas de emoção são hoje para você!
Para quem quiser conhecer um pouquinho este trabalho, clique aqui para assistir a um dos vídeos, que tomei a liberdade de colocar no You Tube. Tem também um link para uma reportagem exibida pela EPTV de Ribeirão Preto. Vale a pena assistir. Clique aqui.

Arnaldo Terra: a beleza em forma de som


Fonte: Correio de Uberlândia,
by Valter de Paula




 Há muitos e muitos anos, com certeza mais de dez, ouvi pela primeira vez a música de Arnaldo Terra. Era meu aniversário e resolvi comemorar no Clementina, com amigos queridos e colegas de trabalho. Ao chegarmos lá, demos de cara com o músico, tocando belas canções que encantaram nossa noite.
Embora faça muito tempo, aquele aniversário ficou marcado como a noite em que o Arnaldo Terra tocou para mim. Depois disso, jamais o esqueci e, em algumas ocasiões, tive a chance de chamá-lo para abrilhantar eventos empresariais.
Recentemente, li no jornal Correio que ele lançaria um CD, com composições próprias. Procurei em algumas lojas da cidade e não encontrei. Até que, perto do Dia das Mães, encontrei na Livraria Nobel, ali no Fundinho.
Ao chegar em casa, comecei a ouvir Arnaldo Terra e seu belo violão. A melodia nos transporta para um outro lugar. Os sons que ele é capaz de tirar do instrumento são maravilhosos. Arnaldo é um artista da terra, dessa terra fértil que produz tantos bons músicos, mas também dessa terra ingrata onde cultura é algo pouquíssimo valorizado.
Não sou especialista em música, mas sei apreciá-la. Sei ficar quietinha ouvindo os sons mágicos que saem das mãos do artista, que compõem como se fosse para agradar aos ouvidos de seres celestes.
Vale a pena ouvir Arnaldo Terra. Muitos, que o acompanham, como eu, já ouviram sua emocionante versão para "What a Wonderful World". Ou ainda suas versões ao violão para clássicos da música brasileira, como Aquarela do Brasil, Brasileirinho, Carinhoso. Tentei achar um vídeo bacana para compartilhar um pouco desse imenso talento. Achei uma versão de Hotel Califórnia que é de arrepiar. Para quem quiser assistir, clique aqui.
No CD, ele toca composições próprias. A gente ouve e esquece que o tempo passa. A beleza tem várias formas. Na forma de som, acho que ela se chama Arnaldo Terra.

A violência cada vez mais perto da gente

Fonte: blog
memoriasdagordinha.blogspot.com
Há algumas semanas, resolvi colaborar com a melhoria do trânsito em Uberlândia e usar uma das rotas alternativas rumo ao centro da cidade, com o objetivo de evitar o cruzamento das avenidas Rondon Pacheco e João Naves de Ávila. Previdente, saí mais cedo de casa, para evitar imprevistos. Optei por descer a Segismundo Pereira até a João Naves, passar pela rotatória e seguir até aquele hotel que fica em frente ao portão principal do campus Santa Mônica.
Até aí, quase tudo bem. Na rotatória da Segismundo, sem mais nem menos, o motorista de um Fox branco forçava passagem, nervoso e apressado. Ele se enfiou entre meu carro e o que estava ao meu lado, passando entre os dois com dificuldade. Entrou na avenida a mais de 100 km por hora. Neste momento, pensei que se tratava de um carro roubado. Ele sumiu de vista, mas infelizmente, havia decidido fazer a mesma rota alternativa que eu.
Quando consegui chegar aquela rua do hotel, que desemboca na Rondon Pacheco, lá estava o Fox branco novamente, parado. Pensei outra vez que se tratava de um roubo, mas não tive tempo de fazer nada. O cara arrancou bem na minha frente e saiu a toda velocidade rumo à avenida. O que ele não esperava é que houvesse uma viatura no quarteirão seguinte. Penso que o motorista agiu sem pensar, porque jogou o carro em uma árvore, ao lado da viatura.
Tudo isso aconteceu em questão de segundos. O carro batido na árvore, o ladrão, o policial e o meu carro emparelhados. Jamais havia estado tão perto de uma cena dessa e com tamanho risco. De arma em punho, o policial aguardava que o jovem saísse do carro. Na minha frente, o trânsito não fluia porque o sinal estava fechado. Alguns motoristas começaram a sair dos carros para ver a ação. Eu olhava para o guarda, para o bandido e para minha Nossa Senhora Aparecida que fica no painel do carro. Pedia socorro: me tira daqui.
Poucas vezes em minha vida um sinal demorou tanto tempo para abrir. Parece que foi uma eternidade. A arma apontada para o ladrão. O carro batido. O PM tentando controlar a situação. O bandido. E eu ali, sem poder ir para a frente ou para trás. Sair dali era a coisa que eu mais queria na vida.
Tudo isso aconteceu em menos de dois minutos, antes das 7h da manhã, em uma região movimentada da cidade. Não houve troca de tiros, mas houve perigo para vários motoristas. A polícia de Uberlândia está nas ruas, a prisão foi rápida e sem violência, mas confesso que essas coisas vão aumentando meu medo da cidade. A violência está do lado da gente. Resta viver com essa consciência e estar atento para não nos transformarmos em mais uma de suas vítimas.