25 de jul de 2010

Jornalismo e o cuidado com as palavras


Graduei-me em jornalismo no início dos anos 90. Pouca coisa do que aprendi na faculdade continua válido, aconteceram muitas mudanças sociais, políticas, tecnológicas e demográficas, para ficar apenas nessas. Mas uma coisa que aprendi na Universidade Estadual de Londrina continua mais viva do que nunca: o uso adequado das palavras. Tive um professor que me repreendeu uma vez porque usei o termo "vulgo" para referir-me ao apelido de uma pessoa. Ele me disse que esse termo tinha conotação negativa, mais usado no campo da linguagem policial. Orientou-me a usar "conhecido como...". Foi uma lição da qual não me esqueci. Outra coisa que esse mesmo professor me ensinou: "se estiver em dúvida quanto ao uso de uma palavra, troque-a por outra". A língua portuguesa permite isso, dada a sua riqueza.
Esse aprendizado me voltou forte hoje, quando abri o Jornal Correio e li na coluna sobre política o título "Rebanho em crescimento", referindo-se a uma pesquisa que aponta o crescimento do eleitorado na cidade. A palavra "rebanho" pode ser utilizada para referir-se a animais (gado, ovelhas, cabras) e também a pessoas que se deixam guiar, e algumas vezes manobrar, por alguém. Entendo que o autor da coluna quis dar este sentido ao título, mas considero que houve uma infeliz escolha de palavras.
Se o termo foi utilizado para chamar o leitor (e eleitor) de gado, nem preciso comentar. Se foi para referir-se a pessoas que seguem um líder político sem criticidade, como massa da manobra, isso também me deixa indignada. Vivo em Uberlândia há mais de 15 anos. Voto aqui desde então. Participei de vários movimentos comunitários, como a Central de Voluntariado, no início dos anos 2000. Sou professora e educo jovens. Faço mestrado. Leio jornais. Converso com pessoas críticas e que me ensinam muito. Embora saiba que existe sim muita manipulação na política, não me considero parte de um rebanho esperando passivamente pelas "cordinhas" de alguem manipulador que me levará para onde quiser. Considero-me alguém que escreve minha história.
Ser chamada de parte de um "rebanho" em um jornal diário me fez sentir ofendida. Talvez porque gosto de ser gente, cidadã, de votar conscientemente. Acredito na construção de uma cidade mais justa, mais honesta. Como professora, busco contribuir para formar cidadãos críticos, que vão contribuir para um país melhor.
Muitas vezes leio no jornal local coisas que me deixam chateada, mas dessa vez fiquei indignada mesmo. Pode parecer algo pequeno, talvez uma tempestade em copo d´água. Sim, talvez. Mas também acredito que um jornal tem papel dialógico e temos que fazer nossa parte em criticar, mostrar que alguma coisa nos ofendeu ou não corresponde à verdade. Escrevi um email para o autor da coluna antes de escrever este post.
Uma vez assisti a uma palestra na Unitri, para estudantes de jornalismo, onde o palestrante perguntou quantas pessoas liam jornal. Algumas poucas levantaram a mão. Ele perguntou por que as pessoas não liam. Muitas alegaram desinteresse ou problemas relativos à abordagem das matérias. Ele então provocou: "quantos de vocês já enviaram uma carta para o jornal questionando ou criticando alguma coisa?". Ninguém levantou a mão. Ao que ele retrucou: "então, como vocês querem um jornal melhor?"
Fazer jornal é um desafio grande. Envolve investimentos e profissionais de qualidade. Mas envolve também um retorno ao básico, que é tratar o leitor com respeito. E isso passa pela escolha adequada das palavras. O "Caso Bruno" tem sido outro exemplo de mau uso das palavras. A lei brasileira diz que todas as pessoas são inocentes, até que se prove o contrário. Nas matérias jornalisticas, os envolvidos não tem sido chamados de "acusados". Normalmente eles são os "envolvidos" ou "culpados" pelo desaparecimento da Eliza Samudio. "Acusados do sequestro, acusados da morte, acusados de sequestrarem o bebê". Essa palavrinha faz diferença. Ao final, pode ser que tudo venha a ser provado, eles sejam julgados e condenados, mas a imprensa terá feito a cobertura correta, respeitando as regras e leis que foram criadas por algum motivo.
Palavras tem poder. Elas podem encantar, ofender, mobilizar, ensinar, orientar. No meu caso, como leitora, ser chamada de  parte de um rebanho em plena manhã de domingo me deixou triste. Muito triste.

10 de jul de 2010

Reciclar o guarda-roupas

Dia desses abri meu guarda-roupas e percebi que havia muitas peças que estavam sem uso há mais de um ano, ou porque estavam com algum pequeno defeito ou porque estavam fora de moda mesmo. Peças boas, de qualidade, mas que por algum motivo parei de usar. Uma mancha, um detalhe brega, largas demais, apertadas demais. Normalmente, quando não uso alguma coisa no período de um ano, tenho o hábito de doar a peça, mas dessa vez pensei diferente, resolvi reciclar.
Percebi que, quando dou uma peça de roupa para alguém, logo logo me vejo comprando outra para colocar no lugar. Não estou me referindo a camiseta e calça jeans, mas vestidos, blusas, saias. Sai uma, entra outra. Não necessariamente nessa mesma ordem.
Na arrumação, olhei para uma calça branca que comprei há mais de dez anos. Ela tinha um corte lateral perto da canela, emoldurado por um bordado de flores ultra brega. Mandei cortar essa parte e a calça virou uma corsário. Além disso, ela foi tingida com uma técnica que transformou o tecido branco em xadrez. A velha calça desapareceu e em seu lugar, uma peça moderninha. Se a calça branca durou dez anos e estava em perfeitas condições, agora que mudou de cor pode durar outros dez.
Tinha também um vestido e uma jaqueta brancos, amarelados pelo tempo. Nenhuma quiboa do mundo tirava as manchas amarelas e a cara de envelhecido. O vestido ganhou uma tonalidade roxa e ficou lindo, parecendo uma peça novinha. A jaqueta foi tingida de preto e ficou fantástica. Mais duas peças novas.
Uma calça de um terninho estava manchada e encostada há mais de um ano. A mancha foi retirada e o conjunto voltará à ativa, ainda mais agora, quando retomei para valer minha vida corporativa. Uma calça boca de sino cor de vinho virou uma mais justa, preta.
Gastei pouco mais de R$ 150,00 para reciclar seis peças de roupa. Cada uma teria saído por R$ 25,00 (numa conta de padeiro, porque algumas ficaram mais caras, outras mais baratas). Se eu tivesse que comprar peças novas, supondo que cada uma custasse cerca de R$ 100,00, iria investir R$ 600,00. Uma calça que dura mais de dez anos, deve valer bem mais que R$ 100,00.
Como toda mulher, adoro comprar, consumir, ter coisas novas. Uma crise financeira que se abateu sobre mim nos últimos três anos me fez mudar meus hábitos e enxergar novas possibilidades. Reformar roupas, calçados, móveis, é muito mais barato que comprar novos. A gente evita desperdício, coloca a criatividade para funcionar e ainda pode mudar de novo, se enjoar.
Fica a dica para quem não joga nada fora, mas também não usa o que tem no armário. Reciclar, reutilizar, reinventar são palavras de ordem nessa nova sociedade, onde os recursos são escassos mas a criatividade é muita.

Em Uberlândia, eu recomendo o trabalho do Restaura Jeans, que fica ali do lado do Hospital Santa Genoveva. Além dos pequenos ajustes, eles trabalham com tintura de tecidos. São muito profissionais, o preço é justo e o atendimento de primeira.

1 de jul de 2010

O telefone que toca

Detesto telefone que toca tarde da noite. Desde pequena relaciono isso com notícia ruim. Quando meu pai faleceu, não morávamos com ele. O telefone tocou de noite. Eu dormia na sala e quando minha mãe atendeu, deram a notícia. O mundo parou por instantes. Acabou. Uma pessoa tinha ido embora, assim, sem mais nem menos. E avisaram pelo telefone.
Ontem à noite, o telefone tocou de noite. Era tarde. Um vizinho da casa onde passei a maior parte da minha vida havia falecido. A casa deles é colada na casa onde minha mãe mora até hoje. Sem mais nem menos ele se foi. Depois que a gente cresce e muda da casa dos pais, os vizinhos vão ficando longe da memória. Nas visitas que fazemos vez ou outra, eles sorriem e acenam do portão. Nos viram crescer. Assistiram às nossas artes e às nossas conquistas. De repente, o telefonema à noite. Acabou. Mais uma pessoa foi embora.
Há anos associo telefonemas à noite a notícia ruim. Por princípio, eu não ligo para ninguém depois de certo horário. Uma vez sofri um acidente de carro e só avisei as pessoas no dia seguinte, quando já estava tudo bem. Não queria angustiar a noite de ninguém.
Mas houve um tempo em que quando o telefone tocava à noite, por volta das 22h, meu coração pulava de alegria. Era o homem que eu amava, ligando do outro lado do mundo para conversar horas comigo. Ao ouvir a voz tão familiar, a alegria tomava conta de mim. Não me passava pela cabeça que aquele telefonema à noite pudesse ser coisa ruim. Eram alegrias, promessas, palavras de amor. O medo do telefone à noite desapareceu por algum tempo. Após o enlevo, veio o abandono. Não mais palavras de amor adentrando a madrugada. O telefone mudo. A dor, a tristeza e o choro. O tempo veio, cicatrizou a ferida.
O mesmo telefone que quando tocava à noite me fazia pensar que havia algum problema, quando se calou na noite do abandono me fez sentir sua falta. Um único fato, tantos sentimentos. Somos capazes de alterar o significado de muitas coisas ao longo de nossa vida. O medo de dirigir pode transformar-se em verdadeira paixão por estrada. A tímida adolescente pode transformar-se numa profissional corajosa. A menina gorda se torna uma quase atleta. O poder da mudança está aqui, dentro de cada um.
Mas infelizmente, quando o telefone tocou ontem à noite para avisar sobre a morte do vizinho, muitas lembranças vieram à mente. Lembranças de que as pessoas entram e saem de nossas vidas. Lembranças de que somos transitórios. Lembranças de um tempo bom em que a gente era criança e as maiores preocupações eram a lição de casa e o quarto arrumado. É triste quando alguém se vai. É triste quando a gente fica e junto com a gente um vazio. Vai ser triste chegar em casa e não receber mais o aceno no portão, mesmo que de longe. É triste pensar que somos apenas passageiros. Por isso, a jornada precisa valer a pena.

Escrevi pensando no seu Jessé Ulhoa, vizinho da minha mãe por mais de 30 anos, que faleceu ontem. Pai, esposo e avô. Um homem calmo, sereno, amigo da minha mãe. Fique em paz!

Mercado municipal: espaço de encontros

Aproveitando as férias da faculdade, onde dou aulas praticamente todas as noites, finalmente consegui ir na Feira Gastronômica que acontece mensalmente no Mercado Municipal de Uberlândia. Um programa despretencioso que acabou se transformando em momento de muitos encontros.
O Mercado Municipal por muitos anos foi um espaço exclusivamente voltado para a comercialização de produtos artesanais, como queijos e doces. Recentemente passou por uma grande reforma e seus espaços passaram a ser ocupados também por bares, cafés, restaurante, sorveteria e delicadas lojas de artesanato. Os paralelepípedos que calçam o chão remetem aos tempos em que se andava a cavalo pelas ruas da cidade. São desconfortáveis para os saltos altos dos tempos modernos mas deviam combinar bem com as botas dos fazendeiros do passado, que por ali passavam para entregar o leite de cada dia.
Na Feira Gastronômica, o músico Luis Salgado encantava a noite, iluminada por uma Lua Crescente que sorria como o gato de alice no céu. Em dado momento, um grupo de pessoas, todos adultos, dançavam cantigas de roda ao som do violeiro, como se o tempo não houvesse passado e estivéssemos todos de volta aos idos de 1950, quando a cidade era bem menor e as pessoas ainda se conheciam, se visitavam e iam ao Mercado Municipal ou invés do hipermercado frio.
Mas na verdade, o tempo não passou. No presente ainda compramos no mercado público, encontramos amigos queridos e somos capazes de nos regozijar no encontro, brincamos de roda com os saltos inadequados para os paralelepípedos. Comemos coisas gostosas, sorrimos para as pessoas e recebemos sorrisos de volta. Somos enfeitiçados pela viola que soa na noite cantigas de roda.
As cidades crescem. Isso é fato. Mas as cidades são lugares de encontro. Basta deixar a novela de lado, esquecer da internet. "A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida", dizia Vinícius de Moraes. E tudo segue seu rumo.

Os bichos de estimação merecem respeito

Tem gente que adora bicho. Gosta tanto que cuida com amor e respeito.
Tem gente que tolera bicho. Acaba tendo em casa por causa das crianças, da esposa ou só para ter um animal de guarda.
Tem gente que não suporta bicho mas acha bonitinho ter um cachorrinho de madame. E compra o mais caro da loja para exibir para os amigos.
Tem gente que acha que bicho é brinquedo. Dá de presente como se ele fosse uma boneca de pano.
Tem gente que quer salvar os bichos. De vez em quando baixa um São Francisco de Assis e essa pessoa dedica todo o amor do mundo para abrigar e cuidar dos bichos. Dentro do que estiver ao seu alcance.
Tem gente que judia de bicho. Que cria bicho para atacar. Que maltrata bicho. Bem, esse típo de gente é melhor nem comentar.
Tem gente esquece que bicho é um ser vivo, que precisa de comida, de exercício, de disciplina, de carinho.
Tem gente que abandona bicho, que perde bicho, que deixa bicho sozinho para ele se virar na cidade. E se esquece que bicho, uma vez domesticado, não lembra como era viver na natureza. Aliás, nunca viveu. Bicho da cidade anda de carro e até de avião.
Em Uberlândia, ultimamente, um grupo de pessoas que adoram bichos tem ficado assustado com a quantidade de cães e gatos que estão sendo abandonados pela cidade, perdidos ou jogados fora mesmo. No portal Clube do Pet (http://www.clubedopet.com.br/) , anúncios e mais anúncios de animais perdidos, em especial cachorros. Pessoas que gostam de cães recolhem os que parecem ter donos em casa e tentam achar o dono pelo twitter ou espalhando cartazes. Tenho uma amiga que tem 54 gatos em casa, muitos deles recolhidos no entorno da empresa Algar Tecnologia, um dos pontos onde as pessoas abandonam animais.
A APA, o Clube do Pet e o pet shop Bichos e Caprichos tem feito de tudo para cuidar dos animais abandonados, com programas de incentivo à castração, campanhas de conscientização sobre posse responsável e até mesmo se comprometendo a cuidar dos bichos machucados que são encontrados nas ruas.
Mas assusta e causa espando a quantidade de pessoas que perdem seus bichos por puro descuido. Um portão aberto, uma visita descuidada, um passeio sem coleira. O cachorro, em especial, nem sempre sabe voltar para casa sozinho. Tem criança que adoece quando perde o bichinho e pessoas que oferecem recompensa para quem encontrá-los. Mas o que se pergunta é: que tipo de pessoa deixa um bicho escapar e só percebe muito tempo depois, quando ele já sumiu? Que tipo de pessoa abandona um cachorrinho para morrer no Parque do Sabiá? Que tipo de pessoa compra um cachorro caríssimo para depois abandoná-lo por que vai mudar para um apartamento?
O bicho doméstico depende das pessoas. Uma vez assisti a um documentário falando que, se todos os homens desaparecessem da face da terra, muitos bichos morreriam de fome porque não saberiam nem sequer sair de casa para buscar comida e água. A responsabilidade é de quem resolve ter bicho. Posse responsável envolve muito mais que água, comida e teto. Envolve respeito, cuidado, saúde, vigia e muitas outras coisas. Quem perde um bicho provavelmente não fez a lição de casa direito.

O velho hábito de conviver com a vizinhança

Moro no Santa Mônica, na parte de baixo da avenida Segismundo Pereira. Trata-se de uma parte mais comercial do bairro, onde casas e estabelecimentos comerciais compartilham o espaço com carros, crianças, animais, pedestres, ciclistas, carroceiros e muitos outros tipos que cruzam a vida das cidades.
Uma das coisas mais gostosas deste pedaço do bairro é o resgate da boa e velha vizinhança. Aqui, as pessoas conhecem os vizinhos, cumprimentam, param para bater um papo, pedem para vigiar a casa. Crianças jogam bola na rua e saem correndo quando são interrompidas pelos carros. No comércio, somos conhecidos pelos nossos hábitos, mesmo que não lembrem nosso nome.
Todos os sábados, faço compras de frutas, verduras e legumes na feira. Encontro sempre as mesmas pessoas, trocamos sorrisos e cumprimentos, como em qualquer cidade do interior. Nas bancas, todos sabem que evito sacolas plásticas, embora para algumas coisas, como folhas, por exemplo, acabo tendo que ceder. O vendedor de queijo fresco e o filho me recebem toda semana com um sorrisso, dividem um queijo pela metade, oferecem bolos e doces que de vez em quando eu compro, No meio dos vendedores e do burburinho da feira, os vizinhos se cruzam, se cumprimentam e seguem adiante, afinal, há tanto o que fazer.
Comecei também a valorizar o comércio do bairro. Abasteço sempre no mesmo posto, onde já sou conhecida e tratada com carinho. A oficina mecânica fica ao lado de casa e quando passo aperto com o carro, eles logo vem me acudir, muitas vezes antes de eu chamar. Gás, supermercado, padaria, tudo fica no entorno. Posso até deixar o carro e seguir a pé para resolver meus pequenos problemas domésticos.
Morar em bairro é bom demais da conta. Especialmente se aprendemos a construir relacionamentos. Meu vizinho de frente é uma espécie de segurança da rua, sempre conversando com as pessoas na calçada. Sinto-me segura por saber que, se eu precisar, estou ao alcance de um grito. Na casa ao lado, um casal maravilhoso, que tem um cachorro também muito legal, diferente da minha chatinha. Nas casas da proximidade, pessoas do bem, trabalhadoras, amigas, legais, que oferecem ao menos um sorriso.
Como deve ser chato morar em prédio e mal conhecer o vizinho do lado. Mal cumprimentar as pessoas quando cruza com elas ou mesmo contentar-se com o frio atendimento de um caixa de supermercado.
Relacionamento é tudo. Por meio de contato com pessoas nós desenvolvemos a linguagem, aprendemos a pensar, amamos, odiamos, brigamos e nos reconciliamos. Relacionar-se é um dom especial, que muitos de nós abrimos mão de cultivar, em nome de segurança e paciência. Eu adoro morar em bairro, ir de chinela havaiana na feira, sair descalça na porta de casa, caminhar pelas ruas sabendo onde chegar.
Falo aqui das coisas boas do meu bairro, mas tenho certeza que por essa imensa Uberlândia temos muitas histórias parecidas com a minha.

Eleições

As eleições se aproximam. Estarão em jogo alguns dos principais cargos eletivos do país, como a presidência da República, Senado, Câmara Federal e Estadual e Governadores. Acaba de ser aprovada a lei que torna inelegíveis políticos que tenham sido condenados pela justiça por atos criminosos e improbidade administrativa. Isso deveria ser visto com bons olhos, mas o que estamos vendo acontecer é o início de uma disputa jurídica, onde políticos com ficha suja querem provar que têm o direito a disputar uma eleição.

Começo a pensar que a gente deveria fazer com nosso voto o que faz com nosso dinheiro e com as escolhas que faz para nossa família. Você deixaria seu filho nas mãos de uma babá que responde a um processo por ter batido em uma criança? Mesmo que ela esteja respondendo ao processo em liberdade, ainda não houve uma condenação, mas todas as provas indicam que ela realmente cometeu o ato. Você a deixaria tomar conta de seu filho?
Você contrataria para trabalhar na sua empresa um profissional que foi demitido anteriormente porque aceitou receber um benefício de um fornecedor em troca de fechar um contrato com ele? Contrataria um profissional que foi desligado porque assediou moralmente seus subordinados, ameaçando-os a trabalhar sob condições inadequadas apenas para que ele pudesse ganhar mais bônus no fim do ano?
Em outro contexto, você compraria um produto pela metade do preço, mesmo sabendo que sua procedência é duvidosa e que ele pode ter sido roubado de alguém? Mesmo correndo o risco de ser interpelado pela polícia e acusado de receptação? Você procuraria um médico para atendê-lo caso ele estivesse respondendo a um processo por imperícia, onde existem fortes evidências de que ele realmente cometeu o ato?
A lei aprovada pelo Senado torna inelegíveis apenas os candidatos efetivamente condenados pela justiça. Isso é bom, porque vai permitir ao eleitor conhecer os fatos antes de escolher em quem votar. No entanto, idoneidade, seriedade e ética podem e devem ser avaliados em toda a carreira do político. Da mesma maneira que uma mãe não contrataria uma babá acusada de bater em uma criança ou uma empresa não contrataria um funcionário demitido por ter aceito um suborno, nós, como eleitores, temos que estar atentos para votar em candidatos idôneos, sem pendências com a lei.
Temos que parar de justificar nosso voto na base do "rouba mas faz". Quem rouba, mente, mata, comete fraudes ou irregularidades em benefício próprio ou de terceiros, não merece nosso voto. O fato de haver um processo, julgado ou em andamento, deve alertar nosso senso crítico para refletir sobre outras opções de candidatos. Existem muitos políticos sérios, querendo trabalhar pela cidade, pelo Estado e pelo País. Existem políticos com ficha limpa. Nosso papel, como eleitores, é procurar escolher conscientemente, pesquisar na internet, atentar para o noticiário e buscar informações idôneas sobre o político que queremos eleger.
Se nos preocupamos com quem vamos contratar para trabalhar em nossa casa, em nossa empresa, para cuidar de nossa saúde, temos que nos preocupar ainda mais com quem vamos escolher para fazer a gestão do nosso Estado e do nosso País.

Para ilustrar este texto, quis fazer uma homenagem ao cartunista Henfil, que tanto lutou por eleições diretas nesta país, por um sistema político mais justo. Para isso, usou uma arma poderosa: o humor.

Acessibilidade

Dia desses, participando de uma reunião na Associação de Moradores do bairro onde moro, uma pessoa fez um comentário sobre acessibilidade nas calçadas da vizinhança. Eu argumentei que na redondeza existem várias rampas, em especial nas vias principais. A pessoa concordou comigo, mas alertou para o quanto as calçadas são desniveladas, com degraus, buracos, árvores com copas baixas e frondosas, grades e tantos outros obstáculos que são simplesmente instrasnponíveis para quem se locomove usando cadeira de rodas ou para mães com carrinhos de bebê. O resultado é que essas pessoas acabam andando na rua, ou enfrentando uma verdadeira pista de obstáculos em plena calçada.

Começo pelo trecho na porta da minha casa. Minha calçada é rebaixada para a entrada na garagem. Quando fiz a última reforma não pensei nisso, mas é difícil passar por ela com uma cadeira de rodas, por causa deste desnível. No quarteirão da minha casa, a situação se repete. São buracos, degraus, árvores e uma série de outros entraves à livre passagem de quem não pode andar, incluindo aí cadeirantes e bebês empurrados pelas mães em seus carrinhos.
Ontem à noite, quando fui caminhar com minha cachorra, prestei ainda mais atenção. Existe uma grande quantidade de calçadas onde a lixeira dos prédios ocupa mais de 40% do passeio, suspensas sobre um suporte de metal. As caixas são grandes para abrigar todo o lixo do prédio. Entre elas e o muro, mal passa uma pessoa em pé. Poucos passos e uma árvore enorme obriga os pedestres a desviarem e passarem pela rua. Andando um pouco mais, na Belarmino, uma empresa que instala som automotivo deixa suas grades durante todo o dia sobre a calçada, obrigando os pedestres a caminharem pela rua.
Além de buracos, desníveis, árvores e lixeiras, ainda existem os bares que colocam mesas nas calçadas. No fim da tarde, elas tomam conta das ruas do bairro. Cadeirantes e carrinhos de bebê dificilmente passariam por esses espaços.
Depois da conversa e das minhas caminhadas pelo bairro, pensei no quanto não pensamos em coisas básicas como a calçada de nossa casa. Queremos que ela seja bonita, desperdiçamos água para lavá-la, colocamos plantas. Tudo para que a fachada fique bacana. Mas esquecemos que as calçadas são espaços públicos, por onde transitam todos os tipos de pessoas. Vou pensar mais a respeito e, numa futura reforma, levar em consideração não apenas o aspecto estético, mas também o respeito pelo outro que mora na cidade e se locomove de um jeito diferente.

Rádio de qualidade


Desde que a velha Rádio Itatiaia deixou de existir em Uberlândia, fiquei meio sem referências sobre o que ouvir em termos de música de qualidade. Nada contra nenhum gênero musical, mas não consigo gostar de pagode, axé e sertanejo. Rock eu gosto um pouco, mas exceto pelo que leio no jornal, não faço a mínima idéia do que canta Lady Gaga. Acho que já ouvi Beyoncé, mas fora esses nomes que estão sempre na mídia, me considero uma analfabeta musical no que diz respeito às paradas de sucesso dos dias atuais.

Para me manter mais ou menos atualizada, leio a coluna Novo Som no Jornal Correio, assinada pela competente Adreana Oliveira, com quem tive o prazer de trabalhar há muitos anos. Apaixonada por música, ela contribui um pouquinho para aumentar meu nível cultural no que diz respeito a Rock.
Meu principal contato com a música via Rádio tem sido a FM Universitária, que ouço no carro, no aparelho de som, no MP4, no celular e agora na internet, minha mais nova mania (http://www.rtu.ufu.br/v1/).
A programação da emissora traz música de qualidade, programas interessantes, e muita, mas muita música brasileira. Inclusive música de gente daqui. Volta e meia a gente ouve canções interpretadas por cantores e compositores locais, como Carlim de Almeida, Luis Salgado, Quarteto Vagamundo, Helen Calaça, Cristina Goulart e tantos outros. Ultimamente ando encantada com uma música que participou do festival universitário da canção, chamada "Diz aí", de Julie Melo e Janaína Santiago.
Não posso nem criticar as outras emissoras porque não ouço. Talvez elas também abram espaço para talentos locais, cada um em seu estilo. Além de MPB, a cidade é berço de pagodeiros que conquistaram o Brasil, como Alexandre Pires e o Só Prá Contrariar. Bruno e Marrone e Victor e Léo parece que também moram por aqui e conquistam o país com seu trabalho.
Dia desses eu estava ouvindo a Rádio Universitária em pleno domingo e foi veiculado um belíssimo programa sobre a vida e a obra de Cole Porter, compositor americano de uma das mais belas canções de amor do mundo, chamada "Everytime we say goodbye", Em outra ocasião, no mesmo domingo à noite, uma entrevista muito bacana com Fernanda Takae, do Pato Fu.
Nem tudo são flores na emissora. Justamente por só tocar música de qualidade existe um grande nível de repetição, há dias em que parece que estamos ouvindo a mesma música várias vezes. Outra coisa que incomoda um pouco é a quantidade de "falação" de alguns locutores, em especial de programas especíais, como agora, por exemplo. Estou ouvindo um programa onde o locutor já agradeceu à audiência do reitor duas vezes seguidas. Melhor não falar nada se não houver o que agregar à programação. No programa do Cole Porter, por exemplo, o locutor completou informações, falou de detalhes, contou história de músicas e do filme "De Lovely", que retrata a vida do compositor.
Mas de todo jeito, a Rádio Universitária é para mim a melhor da cidade. Quando está ruim eu mudo de canal só para voltar rapidinho. Antes a "falação" que às vezes me incomoda a escutar letras totalmente desconexas para mim, mas que fazem o maior sucesso Brasil afora. Gosto continua sendo algo pessoal, ainda bem. Mas digo de coração para a Universitária FM: eu amo essa rádio!

Borbogarta ou Lagarleta

Fiz um pequeno furo e olhei para fora.
Nem sei como consegui abrir esse buraquinho minúsculo. Afinal, sou larva. Não tenho dedos. Mas tenho olhos que as poucos acostumam-se à luz que invade o casulo. Luz gostosa. Traz calor.
Como meu mundo de lagarta só tinha referências rastejantes, foi difícil para mim identificar o que via enquanto estava ali, no alto daquela árvore, onde colei-me para poder hibernar e trasnformar-me.
Busquei uma árvore enorme, frondosa, acolhedora. Fiz meu casulo com esmero, com qualidade total. Sou uma excelente construtora. Só esqueci de colocar uma janela para fora. Por isso investi um tempo incontável em fazer esse furo. Mas fiz. E enxerguei o mundo lá fora. Tudo é grande. Tudo é alto. É preciso ter asas fortes.
Ei, espere um pouco. Pelo buraco que fiz no casulo, alguém também me olha. Quem será o dono deste olho que se perde tentando ver o que acontece no casulo? Sou eu mesma, com meu olhar de borboleta.
Nossa! Um furo. O que haverá dentro dessa casulo? Haverá vida? Haverá cor? Haverá inteligência? Olho pelo furo. Não é possível enxergar lá dentro. Escuridão. Beijo apenas um par de olhos que me olha. Os mesmos olhos azuis que são os meus.
Lagarta e borboleta. Sou uma e sou outra. Sou as duas. Uma olhando a outra e aprendendo, desvendando, explorando. Lagarta virando borboleta. Borboleta perdendo a magestade. Dura pouco. È preciso um novo casulo, uma nova construção.
Frente a frente somos apenas uma. Borbogarta. Lagarleta. Amalgamamos. Um faz parte do outro que faz parte do um. O pequeno furo é o que nos separa. Um mero futo que permite ver de dentro para fora e de fora para dentro. Um pequeno furo. Brecha no olhar. Brecha na carapaça. Casulo semi-pronto para o rompimento. Então sobre o furo. Amadurece o furo. Ameaça o furo. Sorri o furo.
Um e dois. Dois e um. Abre e fecha. Começo e fim. Bate as asas borboleta. Voa. Recolhe-te e economiza energia, lagarta. Junta tuas forças para romper o casulo.
Voa. Rompe. Mistura. Vive. Embeleze. Encante. Bata asas. Estique-se. Borboleta, em sua efêmera vida, voce pode tudo. Lagarta, em sua longa espera, você pode tudo.
Dois, um. Um, dois. Espelho. Reverso de mim.